De rédea solta

O seu nome era Panqueca e sua especialidade era auxiliar a levar as vacas de leite para a mangueira. Para os guris e gurias de apartamento, mangueira é o nome utilizado no sul do Brasil para a instalação destinada a ordenhar vacas. Panqueca, nas tardezinhas no pampa, juntamente com o Tio Itamar, que a montava em puro pelo, encaminhava pacientemente as dezenas de vacas para um local ao lado da casa. Isso se repetia há anos. Panqueca já sabia o que fazer. O que não era comum nessa paragem era eu, adolescente, montar essa égua, ou qualquer outra. 

Nesse específico fim de tarde, entre a primavera e o verão, lá pelos idos da década de 90, eu me aventurei a conhecer a famosa Panqueca. Ela era uma gigante em um mundo de ovelhas. Acostumada a comandos já conhecidos, a égua estranhou a minha rédea solta. Deve, sem qualquer dificuldade, ter farejado o meu medo e apreensão. Querendo fugir da falta de comandos, Panqueca fez o que mais sabia fazer: correu. Correu sem medo. Galopava. Eu, sem nenhum controle da situação, piorei tudo e minhas mãos soltaram as rédeas, deixando a égua sem qualquer resquício e intenção de comando. Eu pensei que isso a acalmaria, enfim estaria solta, poderia ficar paradinha, mas era um erro meu pensar que Panqueca estava tensa, ela queria os comandos. E eu não os conhecia. Pavor!

Ela ou eu, não sei qual era a mais perdida. Não lembro se gritei, mas senti vergonha pela falha e estava com medo de me machucar. Pensei: morreremos! Minhas pequenas mãos buscavam de forma desesperada as rédeas que balançavam mais longe que o meu corpo travado conseguia alcançar. Qual foi a minha surpresa quando senti que a égua mirava em um dos únicos postes de luz da propriedade? Tudo poderia piorar! Havia um descampado imenso para ela desbravar, o pampa e o entardecer, poderíamos galopar até a lage do rio, mas, não, a Panqueca só enxergava o poste de luz. Eu, prevendo o pior, resolvi pular do cavalo. O tempo parou, senti-me leve e caí lentamente.

As pessoas correram em minha direção. Eu, com 14 anos e uns pinos a menos, estava estirada no chão. Levanto os olhos para o inevitável. Estava convencida de que a égua estaria pior que eu. A Panqueca, mais sábia que eu e todos ali juntos, relinchava baixo e pastava tranquila no campo após virar à direita quando se aproximou do poste, sem ter dúvida do que fazer. Embora possa ser solitário e aparentar melancolia, cavalo algum é suicida. Só o homem que é medroso.

O medo corta mais profundo que uma espada. George R.R. Martin

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