Mulheres vão de bicicleta

Tive quatro bicicletas na vida. Uma foi a que eu aprendi a pedalar, provavelmente uma herança do meu irmão mais velho.

Uma lembrança que tenho é eu, ainda me acostumando a pedalar com rodinhas e tentando as primeiras pedaladas sem auxílio. Era em Campo Erê (SC), década de 1990, na grama do pátio de casa. Após, já pelas bandas do Rio Grande do Sul, pedalei uma monark feminina com quadro rebaixado. A bicicleta era da minha mãe, mas dividíamos sem problemas.

Após, comprei uma bicicleta em 2005, a já nominada Flobisbela. Nos dias mais atrevidos, pedalava 26km pela rodovia que cortava a cidade. Era jovem e nada de ruim poderia acontecer. Acreditava incondicionalmente nisso. Hoje eu acho uma loucura absurda, até porque a rodovia era utilizada por caminhões, ônibus, carros e motos em alta velocidade. E eu lá, com 20 anos, um pino solto no cérebro, e sem nenhum acessório de proteção. O que mais me incomodava eram os homens que buzinavam e gritavam gracinhas durante o trajeto. Foi por isso que parei de utilizar a bicicleta como meio de transporte para a faculdade. Inúmeras mulheres têm receio de pedalar pelo mesmo motivo, mas vou falar mais sobre isso logo abaixo.

Quando cheguei em Brasília, logo comprei a Florisbela II, não mais roxa, agora laranja. Hoje pedalo 13km por dia pelas ruas da cidade. Por saber das diversas dificuldades, muitas delas distintas daquelas enfrentadas pelos homens, escrevo aqui algumas dicas, uma pretensão de ser o caminho das pedras das novas ciclistas.

1) Escolhendo o modelo: a bicicleta dos seus sonhos varia de acordo com o seu bolso e para qual finalidade você quer. Deseja pedalar como forma de lazer e nos finais de semana? Vai pedalar para o trabalho/faculdade? Quer uma bicicleta para fazer compras, como ir ao supermercado, ou prefere uma que seja específica para esportes? Depois que já tiver mais ou menos delineada a ideia, não deixe de participar do fórum do site Pedal para ver os prós e contras de cada modelo. Não fique receosa porque 90% dos participantes são homens. Certo que eles, desde chiquitos, têm mais oportunidades para construírem suas capacidades em esportes e decisões sobre carros/motos. Eu, por exemplo, participo do fórum e nunca senti qualquer mal estar.  O principal motivo é: se eu não mexer na Florisbela II, ninguém fará, e ela será uma péssima magrela para pedalar.

2) Revisão: Você já comprou a sua bicicleta e agora só pensa em pedalar. NÃO! Leve a pequena a uma bicicletaria ou mecânico de sua confiança porque, antes de sair pedalando a bichinha, ela precisa de uma revisão geral. O que é isso, Júlia? É um olhar cuidadoso para os freios, para o câmbio, para a lubrificação e para os ajustes de acordo com o seu tamanho físico. Também é nessa revisão inicial que o mecânico vai checar se tudo está no devido lugar. É nesse momento que muita gente troca alguns acessórios da bicicleta. Eu não troquei nada, até porque não sabia que a minha bicicleta merecia a troca de algo. Hoje, eu acho que a Florisbela II, uma Tito Urban, merece novos pedais e uma mesa nova. Mesa é onde o guidão fica apoiado. No meu caso, após uma queda, a trava da mesa deixou de funcionar. Eu faço revisão a cada 6 meses, mas, vez ou outra, preciso fazer uma revisão extra, como quando sofri a minha queda, o pedal quebrou e a mesa ficou avariada. O preço gira em torno de R$60,00 a R$90,00. Não esqueça: ela merece revisões!

3) Acessórios: Depende da utilidade que você quer dar à bicicleta. Para mim, basicamente coloquei uma garupa para prender a mochila. O modelo já veio com para-lamas, mas caso não tenha e você pretenda pedalar bastante, coloque para-lamas, pois nada é tão chato quanto voar lama em suas costas. De forma alguma compre uma bicicleta só porque ela vem com cestinha!

4) Vestimenta: O interessante é vestir roupas confortáveis, maleáveis e coloridas.  Nada de roupa preta e que te camuflem. A intenção é que você esteja confortável e seja facilmente vista. Caso use calça com a boca larga, dobre a calça da perna direita para que ela não suje ou, pior, enrosque na correia. O que pode acontecer? Bom, posso falar com propriedade, pois uma vez, enquanto pedalava a monark, a calça cargo enroscou e rasgou até a coxa. Não é nada agradável ter que arrancar a calça da correia.

5) Segurança: O kit básico é composto por luzes sinalizadoras (R$12 cada), farol dianteiro (R$30) e espelho (não tenho). Eu acho que podemos acrescentar o capacete, porque qualquer queda pode causar um traumatismo craniano (preço variável, o meu custou R$80) e uma buzina (R$12). Após duas quedas, concluí que deveria usar luvas, pois a mão foi o que mais machucou. Fora que o cultivo de calos por segurar a manopla são normais. Algumas mulheres podem se incomodar com isso, mas é bom saber que só vão surgir calos caso o uso da bicicleta seja regular e por boas distâncias.

6) Inevitáveis problemas: A câmara de ar irá furar. Não há mandinga que você possa fazer que impeça uma câmara de furar. Você pode estar saindo de casa e perceber que o pneu parece uma panqueca no chão. Você pode é estar rodando há horas pelas ruas e perceber que algo está errado e você, como já aconteceu comigo, pode estar 4 km distante da próxima borracharia e ter que puxar a bicicleta até lá. Não esqueça: não pedale com a câmara de ar furada, porque você pode danificar bastante o pneu. Você pode sempre contar com um remendo na câmara de ar, que custa em torno de R$5, ou aprender a trocar a câmara você mesma.

7) Calibragem: Não é porque o seu namorado coloca 30 libras que você fará igual. A calibragem depende da bicicleta, do terreno e do combo peso do ciclista + bicicleta. Essas são as três principais variáveis, mas existem inúmeras. Normalmente o pessoal coloca 26 libras em pneu de carro, mas isso não é nem longe parâmetro para que você enche os pneus de sua bicicleta. Eu, por exemplo, coloco 50 libras no pneu traseiro e 45 no dianteiro, mas estou pensando em aumentar, porque sinto que o pneu absorve demais o terreno e eu não ganho tanta velocidade. Não se preocupe: o pneu não vai explodir! O importante é: está escrito em todos os pneus qual é o máximo de calibragem. É só olhar e seguir isso.

8) Machismo na bicicleta: Homens talvez não tenham nem noção disso, mas mulheres ciclistas são minoria. Talvez a sua namorada pedale com você nos finais de semana, mas ela se sente confortável para pedalar sozinha? A resposta é, em grande maioria, não. Digo isso baseada no medo que sentia em pedalar sozinha. Foi por isso que deixei de pedalar em 2006. Não falo somente do medo de ter a bicicleta roubada. Falo também do machismo que a mulher sofre ao pedalar. Eram buzinadas, abanos e machismo travestido de elogio. Não precisa ter muita sensibilidade para entender que a mulher ouve inúmeras ”piadas” machistas, gracejos mal articulados, desde ”delícia” à ”gostosa”, passando pelo ”tem cuidado com a bicicleta, moça.” A mulher já ouve barbaridades a pé. De bicicleta, usufruindo de liberdade e sendo autônoma em um campo bastante masculino, ouve-se mais. O que você fará ao ouvir essas barbaridades depende de cada uma. Eu, por exemplo, já ignorei e engoli sapo. Mas eu, também, já fiz uma reclamação formal a um supermercado, pois diariamente ouvia barbaridades de seus funcionários. A reclamação deu certo, surtiu efeito e hoje eu, e espero que todas as ciclistas, possamos pedalar naquelas redondezas sem ouvir palavras de baixo calão. Coragem!

Espero que eu tenha ajudado as ciclistas iniciantes. Pedalem sempre!

#Mulhervaidebike

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2 comentários sobre “Mulheres vão de bicicleta

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