A moça

CRÔNICA | Marcelo Canellas

marcelocanellas@uol.com.br

  • A MOÇA

    Amoça tinha um outro tempo que não o nosso. Entrou no ônibus alheia, distraída, desconectada do mundo que lhe pregava os olhos. Não que fosse blasé, ou despeitada, ou tivesse aquela arrogância típica das mulheres lindas demais. Não. Ela apenas não estava ali. Decerto viajava em mergulhos metafísicos, em abstrações profundas, em cogitações existenciais que a nenhum outro passageiro é dado alcançar.

    Entregou o vale-transporte, passou a catraca e sorriu para o cobrador. O homem enlevou-se com o prêmio, escancarando a boca banguela e revirando-se em tiques e mesuras de agradecimento, enquanto nós outros o invejávamos como os retardatários invejam os campeões.

    Mas a moça ensimesmou-se como antes. Sentou-se junto ao vidro, alçando o olhar para fora como a buscar algo que perdera no limbo das coisas irreais. Havia muito de melancolia naqueles olhos espantosamente verdes.

    O ônibus inteiro se condoía daquela beleza solitária e inexplicavelmente triste desenhada na moldura da janela. Uma atmosfera trágica empestou o corredor, contaminando todas as percepções e nocauteando todas as esperanças. Embora a face abatida de madona renascentista fosse uma predição do que viria, todos se chocaram quando uma lágrima de cada olho verteu formando um arco que se fechou no queixo perfeito.

    Mil olhares de consolação alvejaram a moça sem que ela percebesse. Inútil afago. Muitos fizeram menção de um gesto qualquer, uma tentativa de conforto, de amparo. Mas todos ficamos tontos de hesitação. Ninguém ousou violar o ritual daquele pranto desconcertante. De repente, ela levantou-se, puxou a corda, e o motorista parou de supetão.

    Então a porta se abriu, e a moça se foi, não sem antes virar para trás parecendo despedir-se de nós com um meio sorriso de agradecimento. Todos a vimos sumir na primeira esquina enquanto o ônibus tomava o rumo contrário, o que nos fez comungar do mesmo sentimento enlutado. A bela nunca saberá, mas sua tristeza incongruente salvou todos os passageiros da indiferença cotidiana que nos solapa.

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