O relato do brasileiro que esteve na praça Tahrir

Maurício Vassali tinha 22 anos quando chegou ao Egito para passar dois meses. Seria um intercâmbio normal, não fosse a primavera árabe, a revolução que sacudiu o norte da África em 2011. Ele chegou a receber mensagens via SMS avisando de bloqueios da internet, foi revistado pelo exército e participou de três manifestações na praça Tahrir. Após um ano, o recém-graduado engenheiro florestal responde algumas questões sobre sua passagem pelo país, ressaltando que dois meses não são suficientes para conhecer o Egito.

Cairo, a cidade cor de areia

– Quais foram as tuas primeiras impressões? O mundo árabe e muçulmano te causou estranhamento? Conte mais sobre reconhecer esse país diferente com costumes distintos.
Primeiras impressões: as mulheres cobertas, a poluição e o trânsito. Tudo no mesmo o dia. Quando determinei que não queria conhecer a língua oficial do país não tinha pensado na presença das mulheres de véus e burcas, mesmo sabendo que vê-las seria comum. E era engraçado que tanto em dias quentes como mais frios (se é que eu posso chamar de frio as temperaturas baixas do Cairo), aquelas mulheres mantinham suas vestimentas. Chegou num ponto que isso se tornou corriqueiro, inevitável, mas eu sabia que estava no Egito o tempo inteiro. Sobre a poluição, é realmente chocante. Falo isso como interiorano, não conheço, por exemplo, São Paulo e imagino que a situação da poluição por lá não é das melhores. Mesmo assim, no Cairo, o tempo todo se vê e se sente muita poeira. Prédios, carros e as próprias árvores tinham cores semelhantes devido ao acumulo de pó. É realmente interessante, claro que não é algo bonito, mas eu gostava de estar experimentando aquele espaço, novo pra mim. O trânsito é uma loucura, quase não há sinais, os carros vêm de todas as direções, as buzinas não param, pra atravessar a rua à pé então… é quase impossível. Mas o interessante é que pra pegar táxi, ônibus ou metrô é muito fácil além de ser super barato. Da cultura deles notei que são muito hospitaleiros, calorosos, curiosos. Todos nos recebiam muito bem, sempre com muita comida e nos enchiam de perguntas, na maioria das vezes sobre a cultura brasileira. Eu os achei até mais receptivos que os próprios brasileiros… claro que não com tanto contato físico, cumprimentar mulheres é só aperto de mão, mas mesmo assim nos fazem sentir como se fôssemos da família, essa impressão era constante. Demorei uns dias pra me acostumar com as chamadas pra reza nas mesquitas, que iniciavam as 5h da manhã. Na primeira semana eu madrugava com o som das mesquitas, mas isso não chegou a me irritar. Aliás, nada no Cairo chega a irritar a ponto de querer voltar pro Brasil, pelo menos não em 2 meses. E não falo isso desmerecendo, não faço o tipo ‘tudo que não é brasileiro é melhor’, longe disso. Adoro nosso país, mas 8 semanas no Egito não são suficientes pra se sentir satisfeito.

– Como tu começou a perceber uma convulsão política? Como foi tua leitura disso?
Desde o início conversávamos (eu e outros intercambistas) com nossos amigos egípcios sobre a situação política por lá. Era notável um descontentamento quase que generalizado, principalmente sobre casos de corrupção e pela situação de estagnação do país. Além do fato que várias pessoas consideravam o presidente muito velho para continuar no poder, e por tanto tempo. No entanto, nada chegava perto sequer de imaginarmos uma revolução próxima. Com os acontecimentos na Tunísia, o povo pareceu despertar. Casos como os egípcios que atearam fogo sobre eles mesmos pareciam ser inspirados por atos semelhantes ocorridos na Tunísia. Tínhamos marcado uma viagem para a região do Sinai no final de janeiro e, logo que saímos do Cairo, já sabíamos de uma manifestação que iria ocorrer no dia 25. Não estávamos no Cairo quando tudo começou mas sentíamos o que estava acontecendo, principalmente após o primeiro dia de manifestações já que a internet foi bloqueada e recebíamos mensagens no celular sobre uma próxima manifestação. Era uma mensagem de texto padrão, quase todos que estavam por lá receberam, inclusive eu, que destacava o bloqueio, por parte do governo, de certas redes sociais, seguido da internet como um todo e a provável perda do sinal dos celulares, que veio a se confirmar mais tarde. Estávamos na praia de Sharm-El-Sheikh com 3 amigos egípcios, que deixaram suas famílias no Cairo para viajar conosco… foram momentos bastante fortes. Queríamos voltar antes, para eles estarem perto de suas famílias mas não foi possível, devido ao caos.

Maurício segura o cartaz com os dizeres: ''Saia Mubarak, precisamos trabalhar!''

– No ambiente que tu vivias, como foi a recepção das manifestações? E da crítica ao governo? O que tu percebias?
Como no início da revolução eu não estava no Cairo, percebia muito o medo estampado nos olhos dos meus amigos de lá, que estavam longe dos seus familiares. A princípio, assistíamos a televisão e tudo o que eles pensavam era na família deles. Não queriam que os protestos ocorressem, estavam com medo. Creio eu que foi uma reação de impotência por estarem longe e não saberem como estavam suas famílias (a essa altura eles não conseguiam telefonar pra ninguém no Cairo, muito menos conseguiram comunicação através da internet). Mas logo o sentimento de que tudo aquilo era necessário tomou conta e eles não falavam em outra coisa a não ser a queda do Mubarak. Quando finalmente conseguimos voltar para o Cairo, alguns dias depois do início da revolução, começamos a perceber tudo com mais clareza. Na travessia do canal de Suez, o ônibus foi parado para que checassem as bagagens e os passageiros. Descemos todos, sem exceção. Ficamos lado a lado, junto a passageiros de outras conduções, com as bagagens aos pés e as mãos na cabeça. Um a um fomos revistados por soldados, que carregavam armas que eu nunca tinha visto e eram acompanhados por cães policiais, que farejavam nossas mochilas. Foi um processo bem demorado e tenso. Apesar de saber a proporção de tudo aquilo pela televisão, esse foi o momento que eu senti estar envolvido por todos aqueles acontecimentos. Chegando no Cairo foi uma loucura. As ruas sempre barulhentas e excessivamente movimentadas estavam quase que completamente vazias, lojas fechadas, pichações, cacos de vidro, marcas de sangue e de incêndios. Depois de deixarmos nossas coisas no apartamento, fomos direto ao supermercado, já que os estabelecimentos estavam respeitando o toque de recolher (que naquele dia, se eu não me engano, era às 16h30). No supermercado tive a sensação de estar fazendo parte de um filme-catástrofe. O lugar estava completamente lotado de pessoas desesperadas, colocando em seus carrinhos quantidades absurdas de tudo o que achavam necessário. Também pudera, as relações comerciais ficaram comprometidas devido à revolução e ninguém sabia até quando os estoques durariam. Na mesma tarde, todos os intercambistas se sensibilizaram com a situação, e resolvemos acompanhar nossos amigos egípcios nas manifestações. Minha ‘estréia’ na Praça Tahrir em protestos.

Praça Tahrir foi o principal local das manifestações

– Tu participou das manifestações. Que achou desses momentos? O que ocorreu lá?

Estar no meio das manifestações foi um dos momentos mais inesquecíveis da minha vida. Me senti muito ‘sortudo’ em vivenciar uma experiência dessas logo na primeira viagem pro exterior. Eu fui a três dias de revolução, sempre durante a tarde até escurecer. À noite tudo parecia ficar mais violento, e eu não queria matar meus pais do coração. O que eu notei nesses dias, principalmente, foi a união daquele povo protestando. Uma mistura de crianças, estudantes, trabalhadores… pessoas de todas as classes, gêneros, era muito bonito. Uma imensidão de cartazes em inglês e árabe que, sempre que eu podia, perguntava pra alguém traduzir. Milhões de pessoas gritando, implorando pela queda do presidente, pessoas distribuindo garrafas d’água, pães e biscoitos entre os manifestantes, pais e filhos juntos protestando. Era incrível como aquela multidão parecia uma coisa única, com um objetivo só. Surpreendentemente não presenciei atos violentos, quer dizer, não que eu pudesse considerar violentos naquela situação. Tanques em movimento, contenção de manifestantes, controle por parte do exército, isso sim se via todo o tempo. Entretanto, não presenciei confrontos violentos. Um ponto bem interessante é que, depois que os policiais se retiraram das ruas, no início dos 18 dias da revolução, começaram a ocorrer roubos e assaltos o que fez com que a própria população passasse a trabalhar em favor da segurança em suas ruas. À noite, um grupo de pessoas fechava as ruas para que não houvesse travessia de automóveis, faziam fogueiras, e se encarregavam de cuidar da vizinhança até amanhecer. Os moradores levavam comida como forma de agradecimento aos vizinhos que se disponibilizavam a cuidar da rua durante a madrugada. E eles revezavam essa posição durante os dias. Pelos telefonemas que recebia dos meus pais, super preocupados comigo, dava impressão que tudo o que passavam no noticiário no Brasil era a parte violenta das manifestações (e de fato os principais meios de comunicação mostravam a parte caótica mesmo). Entretanto, ter a experiência de estar no Cairo durante esses dias foi outra realidade, diferente da que se via na TV. Não estou querendo dizer que não houve violência e que não senti medo, apenas que, na maior parte do tempo, o sentimento que a revolução trazia era outro. Teve um ou dois momentos que sim, sentimos muito medo, principalmente quando fomos abordados por um grupo de manifestantes que, armados, não nos liberaram até a chegada de um representante do exército que verificaria nossos documentos. Foram uns 30 ou 40 minutos bem tensos, porque carregávamos máquinas fotográficas com imagens da revolução e a esta altura, um cidadão italiano tinha provocado um atentado no Cairo o que gerou desconfiança para com os estrangeiros, que não mais podiam circular livremente como até então. Ficamos aguardando, com muito medo, a autorização para seguirmos até o apartamento, enquanto os representantes do exército e os manifestantes discutiam em árabe sobre a nossa situação, o que parecia aumentar a sensação de que nos viam como uma ameaça. No final deu tudo certo, mas foi um baita susto.

– O que tu esperas para o Egito? Mantém contato com teus amigos egípcios? O que eles falam sobre o que vivem agora?
Espero o melhor pro Egito, é realmente um país encantador, um povo muito amável. Entretanto, o país está numa fase complexa e que aparentemente vai demorar pra se definir. São muitas influências externas sobre o país adicionadas a já complicada situação que envolve os revolucionários, o sistema parlamentar, os ultraconservadores, os militares, a Irmandade Muçulmana… eu sinceramente não consigo ver uma conclusão a curto prazo. Tenho confiança sim, de que o povo irá conseguir alcançar a tão sonhada democracia, mas acho que vai ser a passos lentos, pouco a pouco e com várias ressalvas (mesmo que essa condição pareça ambígua). Mantenho contato sim com meus amigos de lá e neste momento estão todos envolvidos na luta. No facebook, todo o tempo vejo frases e comentários sobre isso, quase todos usando a mascara do Guy Fawkes (do V de Vingança), fotos das manifestações… é muito notável que a população (falo isso a partir dos amigos que fiz por lá e acompanho pelo Fb) continua completamente envolvida. Sobre o que vivem agora, os meus amigos mais próximos insistem no “It’s dangerous to be right when your government is wrong”, é a frase que eu mais leio quando entro nesse assunto. E de fato, é o que se pode imaginar de uma situação dessas. Visivelmente eles estão descontentes com o que têm até agora e a situação não acalma a sensação de revolta, mas todos parecem ter noção de que o país está numa fase de transição política. Muitos amigos comentam principalmente o abuso por parte das forças armadas, há pouco conversei com um amigo meu que chegou a escrever que “the SCAF is the devil in Egypt”, disse que está uma bagunça por lá e que o maior interesse da Irmandade Muçulmana é ela própria. Sobre os parlamentares, ele acredita que estão tentando ajudar o povo, mas não conseguem enfrentar as forças armadas. Entretanto, isso eu ouço das pessoas que conheço, é notável também que a opinião agora não é tão próxima da unanimidade, como era em relação à queda de Mubarak, já que há muitos manifestantes que ainda exigem reformas e outros que comemoram o sucesso dos partidos islâmicos até então, o que claramente contribui para o retardo de uma definição clara para o país. Como os meus amigos são quase todos jovens e estudantes, eu vejo mais revolta do que contentamento. Acho que sim, um consenso é possível, mas vai levar tempo.

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