Dia 02 — Um livro que você não gosta

Começo este post afirmando que estou cometendo uma injustiça.

O livro que eu não gosto, qualquer que seja, é aquele que eu não li. Até mesmo aqueles que eu obviamente teria picuinhas metodológicas, como o 1808, do Laurentino Gomes, eu acabei lendo e achando algo de interessante. Entretanto, se o autor não me cativar nas primeiras vinte ou trinta páginas, seja com o ritmo, com o envolvimento das personagens ou com a narrativa, eu desisto. Simplesmente fecho o livro e o mato.

 

Um dia me disseram que a estante é o cemitério dos livros

O triângulo das águas, de Caio Fernando Abreu, morreu após um bom tempo de tentativa de leitura. Isso aconteceu há um ano atrás e eu fico a pensar que deveria tentar novamente, até porque já li outros contos do santiaguense e sempre gostei. Acho que na verdade eu estava saturada do Caio e do seu jeito de contar estórias. Aí vai um fragmento bonito, quem sabe eu me anime novamente:

 

“Eu estava ali parado na porta aberta do quarto vazio, cheio de rachaduras nas paredes, piso riscado, vidros nus, já a me curvar em direção ao assoalho para tentar lembrar quando de repente tive certeza de que esse outro me abandonara no que eu poderia chamar de: a metade de minha vida. Portanto a idade que tenho agora, ou que tinha naquele sábado, deveria ser exatamente o dobro da idade contada a partir daquela perda. E de alguma forma, por ser justamente naquele sábado de chuva, em novembro, na tarde, essa perda – ou partida, ou ausência, ou separação, como queiram chamá-la – atingia seu justo dobro. Alguma coisa tinha sido inteiramente paga, como um ciclo se fecha, um transito ou uma lunação acabam, dando origem a outra que será completa até o seu reinício. Eu poderia pensar que a partir de então conseguiria entrar naquele quarto, vedar as rachaduras na paredes, pintar meticulosamente os vidros, enchê-los de trapos e papéis e palhas e cascas e flores secas, como as outras peças da casa, acabando com o seu deserto. Me ocorre, esta é outra coisa que poderia dizer de mim mesmo, se quisesse ser preciso – além de cinza e longo -, tenho um quarto vazio por dentro. Pensando nisso, poderia quem sabe me sentir mais inteiro, como se à medida que fosse me apropriando de cada peça da casa, uma por uma, como quem finca uma bandeira em território novo, me tornasse também dono de novos territórios de mim mesmo.Mas não sei se saberia o que fazer com essa inteireza, possivelmente não me sentiria mais feliz com isso. Então para quê?”

fragmento de “O marinheiro” 

Eu tentei estimular a leitura do livro. Será que consegui? Aí vai o link para a leitura online – Clique aqui.

Já está pra lá da metade do desafio a Nide, do blog Pimenta com Limão.

 

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Um comentário sobre “Dia 02 — Um livro que você não gosta

  1. Estava aqui lendo teus posts e esse em especial cita o Caio, lembrei que certa vez ao ler Morangos Mofados atirei o livro na parede (haha…não lembro o porquê, engraçado lembrar a cena).

    Deve estar saturada das histórias,certamente (por não acabar o Triângulo, confesso que não me marcou muito também).
    Quero muito ler “Cartas” do Caio,mas esse é outro que me disseram: “muitos não conseguem chegar ao final”,de tão pesado. =~

    Beijos, Júlia.

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