após nossa morte, o que despertará a memória dos que ficam?

eu sou apaixonada por palavras. tenho uma mala cheia de diários e agendas, todas repletas de anotações, poemas, crônicas e contos. então, quando eu morrer, quem encontrar pode fuçar o quanto quiser. pode rir, se deliciar e imaginar viver na virada do século XXI. imagino agora que todos meus escritos podem acabar na reciclagem. trágico e ecológico destino.

alguns já queimaram seus diários e não escrevem em blogs. outros não mantêm anotações e não escrevem seus pensamentos em nenhum lugar. outros jamais escreveram cartas, e nem escreverão. restam os emails, quiçá. mas com as senhas e essa tal de privacidade, como fica?

ontem passei a tarde cruzaltense vasculhando sem pressa as relíquias do meu falecido avó. encontrei orações para benzimento, cartas escritas enquanto ele estava no curso para cabo em 1945 (ainda durante a 2ª Guerra Mundial), um incrível livro de anotações veterinárias, já que ele foi auxiliar de um médico veterinário e sua especialidade era aplicar injeções em cavalos, além de desenhos de animais, em especial de eqüinos, sua paixão. também encontrei inúmeras réguas utilizadas para elaborar plantas de construções, assim como sonetos românticos.

guardei os objetos, alguns com quase 60 anos, com o maior carinho naquela caixa de sapato. peguei um óculos da década de 1970 como lembrança. me senti perto daquele jovem de 18 anos e cheio de vida.  em sua carta, não reclamava do exército, mas queria visitar logo a família no interior. o que mais o incomodava era uma bendita dor de dente que o afligia há quase 15 dias. as cartas são incríveis, trazem para perto quem está distante, esquentam ou esfriam o peito.

há cartas que recebi e nunca mais consegui ler. quem sabe o futuro delas quando eu me for? um dia penso nisso. 

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3 comentários sobre “

  1. Acabei queimando vários diários meus já, talvez por vergonha das bobagens de uma guria de 12/13 anos, às vezes me arrependo. Perdi muitas coisas em minhas constantes mudanças de residência, mas certas coisas guardo sempre junto comigo, tuas cartas são um exemplo. Bjos!

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