Pequena história do não-lugar

Ele portava um blusão azul de lã feito à mão quando chegou no ponto do ônibus. A moça ao seu lado tinha um lenço marrom escondendo o pescoço. O namorado segurava o cabo do guarda-chuva com uma mão. Ela encostou em um e depois em dois dedos do moço moreno.

Esperaram cinco minutos até que a condução chegasse e subiram no ônibus com destino ao campus universitário da UFSM. Se acomodaram em pé ao meu lado. Eu sentada e eles tentando o equilíbrio. Ouvia Little Joy, tinha o gosto de café com leite na minha boca e sentia os olhos arderem de sono. Me ofereci para segurar a bolsa preta da moça. A namorada me alertou que estava pesada, eu disse de forma simpática que na descida e quando sentado o santo ajudava. Segurar o material, bolsa, pasta ou mochila é uma gentileza corriqueira nos ônibus da República de Santa Maria.

Alguns instantes depois, pediu para eu abrir janela, pois se sentia mal. Estiquei o braço e com a ponta de três dedos empurrei o vidro. Uma rajada de vento fez com que meu rosto fosse encoberto pelos cabelos. Fiz uma careta, porque gosto mais de vento forte e frio quando estou bebendo vinho tinto e passando pela Rua 24 horas.

A namorada tirou o lenço marrom e fez um bolinho de pano, enrolando o tecido sem qualquer cuidado e com uma certa pressa. Estendeu, calada, o braço para o namorado. Ele guardou o lenço em sua mochila verde e envolveu o braço no corpo dela.

Havia uma linha de pele que escapava acima da calça jeans e debaixo da básica preta de lã. Ele confortou a namorada com um beijo no lateral da testa. Levantou a cabeça até que o nariz pudesse cheirar seus cabelos e ficou um instante se inebriando com o odor das madeixas escuras. Ela fechou os olhos e ele colocou dois dedos debaixo da básica preta. Ela cambaleou para cá e para lá. Não era por causa das paradas bruscas do ônibus e sim pela tontura que sentia.Houve uma movimentação, pescoços e olhos viraram-se para a moça. As pessoas não sabem o que fazer quando alguém desmaia, mesmo que seja por um breve período. A namorada abriu os olhos e, como criança assustada, tentou entender o que tinha acabado de ocorrer.

Uma guria – ela tinha o cabelo tão ruivo que destacava cada sarda do seu rosto branco – tinha a tiracolo uma pasta da Medicina – ATM 2012.1. Com dúvida no olhar, desviou os olhos verdes dos morros e focou na cena da moça. Virou o corpo na direção da namorada e chegou a abrir a boca para perguntar algo ou oferecer ajuda, mas vacilou e ficou quieta. Sua boca pequena fechou-se e a futura médica voltou ao pensamento anterior: a aula de cardiologia. Retornou, então, a olhar para os morros cercanos à Faixa Velha de Camobi. O ônibus, esse ”não-lugar”, não podia fugir do que é: a impessoalidade e o compartilhamento silencioso e virtual dos minutos no decorrer de um dia aleatório.

Fotos: Flickr

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3 comentários sobre “Pequena história do não-lugar

  1. Nada melhor pra caracterizar um onibus que a definição de Caio F. em Aqueles Dois, “Um deserto de almas”… Nada muito alem que um pouco de politica da boa vizinhança e cumprimentos cordiais a alguns conhecidos…

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