Bendito seja João Batista

Após os Arcos da Lapa, eu e meu amigo Frank caminhávamos em busca de leite. Eu estava com muita fome e, sendo criada à base de leite, o que eu mais queria era sentir o líquido gorduroso de uma mimosa qualquer. Achei por dois reais um litro de tetrapark, de uma marca que não tem no sul. Fiquei meio de cara por dois motivos: não tinha leite de saquinho e achei muito caro, mas dei uma nota azul e amassada para a atendente que transbordava de suor mesmo com o ventilador ligado. Ela nem se mexeu para me atender, como se o mormaço atrapalhasse o movimento do corpo.

‘’Não, não precisa de sacolinha, eu levo na mochila mesmo’’.

Despedi-me do Frank, já que tinha que ir correndo para a rodoviária pegar um ônibus para a cidade de Itaboraí (enfim decorei o nome dela). Foi subindo a Ladeira de Castro, ponto de início do morro onde está localizado o bairro Santa Teresa, na Zona Central/Sul do Rio de Janeiro, que eu notei que dos meus dedos pingavam gotas de suor. Nunca tinha acontecido isso comigo. Calor insuportável! Eu sentia a camiseta grudada nas costas.

Antes da despedida – quando eu e Frank estávamos passando pela Rua Riachuelo, olhei para aquele quadro retangular, mais ou menos 60 cm por 30 cm. Estava todo sujo e escondido atrás de várias sacolas brancas de lixo. Mas não era um lixo, não poderia ser. Com certeza foi descartado por estar velhinho, com as laterais corroídas pela falta de moldura, mas de fato não era um lixo. Fiquei um pouco envergonhada em simplesmente pegá-lo, mas a impetuosidade e violência dos atos do Frank, como é do seu caráter (e isso não é ruim, hein), rapidamente pensou: eu vou pegar esse quadro. Voltou alguns metros atrás, separou o quadro das sacolas de lixo e me presenteou: ”Pronto, é seu”. Foi subindo a ladeira de Castro que o quadro escorregava das mãos: suor maldito. Temi que o suor dos braços e mãos estragassem de vez a tinta vagabunda.

Três dias depois foi o quadro mal cheiroso da Rua Riachuelo que salvou minha mala. Eu, sentada no ponto do bondinho no Largo dos Guimarães, desolada e me sentindo burra por não conseguir abrir minha mala pelo esquecimento da senha, fingi que nada estava acontecendo: eu só era mais uma turista com cara de gringa esperando o bondinho para descer do morro. Em pensamento, me iludi que tinha tomado um baita café-da-manhã e que o cheiro da padaria que ficava a 20 metros nem remexia meu estômago.

Fiquei com o quadro e minha mala, mais uma mochila e uma bolsa por quase 3 horas sentada na parada do bonde. Era uma visão engraçada, aposto. Acho que os taxistas e os moradores dali me apelidaram de ”a mulher que espera”. De repente, no vai-e-vem de transeuntes, senta um senhor com bigode e cabelo comprido ao meu lado. Eram poucos fios na cabeleira e a maioria eram brancos. Ele os atava com um elástico preto velho. Vestia uma regata vermelha e uma bermuda desfiada que um dia foi uma calça. Tinha uma mochila velha e acho que ela tinha mais de 10 anos. Tinha cara de nordestino (e isso não é caricato). Um artista nordestino, supus. Seu nome era João Batista e logo que viu o bendito quadro sujo, levantou e apontou o dedo para os morros pintados: ‘’olha que traço interessante, foi você que fez?’’ ”Não, não, eu peguei do lixo mesmo. To levando pra colocar no meu quarto.”

Ficamos uns cinco minutos observando a obra, metade dela no colo dele e metade apoiada nas minhas pernas. Ele dizia: ”Olha, fizeram até parabólicas na favela”. E eu dizia rindo: ”Tem até o Cristo Redentor. Acho que foi uma criança que fez.” Ele disse: ”Acho que não, olha a noção de morros, de linhas horizontais, verticais e diagonais” e outras coisas que só pessoas que tiveram anterior sensibilização artística iriam notar (acho que não era meu caso). Eu só fiquei em silêncio, porque na minha cabeça eu tinha salvado o quadro de sei lá o que e era isso que importava. E também porque iria olhar para ele e lembrar do dia maravilhoso que tive. Naquela segunda-feira eu conheci uma favela, lá em Benfica, onde o Frank cresceu, e também comprei duas calcinhas da marca ”Tá linda Brasil” por um real num feirão em Madureira, bairro sede da escola de samba Portela.

Enfim o papo sobre o quadro foi acabando e eu fui lembrando da mala, do dinheiro que tinha dentro da mala, das minhas roupas e principalmente do salgadinho Fofura, uma porcaria com gosto de isopor e queijo que tinha comprado no dia anterior, mas que me alimentaria naquele momento como se fosse um prato de arroz e feijão, tamanha a minha fome.

Com a intimidade estabelecida em 30 minutos de conversa, eu virei para o artista de Rio Grande do Norte, João Batista, e disse: ”quer salvar meu dia? Abre minha mala sem cortar ela, por favor?” Ele abriu sua mochila velha e rasgada e com um ar heróico tirou sua chave. Disse ”quando voltar ao Rio de Janeiro, visite meu ateliê, eu tenho dois, o de Santa Teresa é para pinturas e tenho um lá no subúrbio só para esculturas”, lembro que ele disse o número 606, casa amarela, mas não lembro o nome da rua). Fez um ou dois movimentos na maldita mala e eu ajudei um pouquinho. Abriu a minha santa malinha e ainda improvisou um cadeado. Tirou do seu molho o anel que junta todas as suas chaves e fechou os dois zíperes da mala. Disse, todo contente: tá prontinho, Júlia.

João Batista, de apreciador de quadros encontrados no lixo a exímio consertador de malas, não se contentou: passou a ser conselheiro. Disse com o seu sotaque mestiço, misturando o carioca com o nordestino: Venha para o Rio de Janeiro agora, porque você, com sua cara de holandesa (”sabia que fui eu casado com uma holandesa e com uma alemã e que você me lembra elas’?’, disse-me João), consegue emprego rapidinho para as Olimpíadas. Eu respondia com meu silêncio e ele entendia que eu estava perdida, não sabia o que o futuro me reservava e dava mais e mais conselhos. Um eu não esqueci: Te atire no mundo, menina, não espera as coisas acontecerem!

Passou mais 20 minutos e o bondinho enfim chegou. Ele disse: ”quer ver algo legal?” Esperou o bondinho passar do ponto, saiu correndo atrás dele e se dependurou nos ferros do bonde. Eu pensei: ”vai esfolar os pés e pernas, acho que não vou nem olhar, ele vai morrer”. Duvidei que ele fosse se equilibrar e pensei que eu seria a única testemunha do esfolamento de um retirante nordestino e artista em Santa Teresa. Não sei como, nem quero tentar um dia, ele se equilibrou e gritou: ’Deu tempo e ainda fiquei na janela”. E riu seu riso aberto com seus dentes felizes e se despediu com a mão esquerda até desaparecer nas ruelas do morro. Manteve o riso até desaparecer da minha visão.

Eis o quadro no parapeito da minha janela.

Enquanto ele e o bondinho se distanciavam, eu juntei minhas mãos na boca, fechei os olhos e mandei um beijo para o João Batista Medeiros, que foi convidado para expor sua obra, um presépio de mais de 1,90 de altura, pelas ruas do Rio de Janeiro, durante o Circuito de Presépios. Caso você circule pela Cidade Maravilhosa e encontre um dos seus presépios (e olha que eu ODEIO presépios), lembre da pessoa magnífica e gentil que João é.

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5 comentários sobre “Bendito seja João Batista

  1. juju …como sempre teu blog tá lindo demais… mistura vc, seu mundo, seus olhos. Mas principalmente evidencia a forma como tu vê o mundo! beijos linda…sobre o cabelo cor de cereja conversamos mais tarde! :)te amo

  2. Mochileira!Acabou que ontem pensando em ti,me perguntei onde tu estaria.Quanto tempo fica aí?Se puder,me manda um email.Saudade rotineira.Abraço forte!Magdalena

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