Eu o conheci…

…num dia em que vesti um casaco roxo, na espera de um frio maior na rua que na sala. Mais uma noite de outono começava. Essa estação em que os plátanos se despem e que minha boca fica seca, tão cortante que dói sorrir. Nesse entardecer comecei o trajeto para o antigo prédio do Hugo Taylor. 

foto: gerson gerloff


A manta de lã verde pinicava meu pescoço. Tinha um ventinho frio, mas ainda não era o Minuano.
Já o amava antes. Antes mesmo de ver seus olhos e as mãos que escrevem. Precavida, subi devagar os degraus que davam acesso à Livraria Nobel. Parada em frente à porta, vi aquele balzaquiano com fios de cabelos brancos cobrindo quase toda sua cabeleira. Sentadinho meio desconfortável, nem estava à minha espera. Nossos olhos nem se cruzaram.
Eu pensei: É ele

Uma estética do frio parecia que lhe cobria. Talvez fossem os olhos vividos ou o casaco verde com os cotovelos gastos. Ele vinha de Satolep. De alguma maneira, fingindo estar conformada, saí com meu livrinho de capa azul sem nenhuma dedicatória, muito menos promessas. A Rio Branco pareceu para mim ser muito mais completa que seus prédios em desconstrução. Pisava no chão sem o mínimo de delicadeza, querendo marcar o retorno. Pensava, ao passar pelo calçadão, no que faria quando chegasse em casa: iria colocar os livros no quintal, todos, sem dó nem piedade, logo depois iria rezar para chover. E choveria.

 

”costumava ver minha alma quando criança, ao bafejar nas vidraças de junho para nelas escrever meu nome. Minha alma carregava meu nome. Mas, durante o longo período que vai do fim daqueles primeiros anos à noite do meu trigésimo aniversário, eu não a vira”
Ramil em Satolep
 

Anúncios

12 comentários sobre “Eu o conheci…

  1. Foi buscar uma dedicatória, ou foi encontrar sem querer encontrar alguém para tapar um “pequeno vazio interior”? Que coisa… hje estou para a interpretação,como a areia está para o deserto…rs ¬¬Gostei do jeito que tu escreve! Gostoso de se ler….Guttweinhttp://bloggalemdoqueseve.blogspot.com/.

  2. Julia!Catherine vive o buscar incessante de seus deuses interiores! Eles se manifestam de forma sutil e arrebatadora, ela entende e nos traduz o cotidiano. Outros querem ler entrelinhas. Tomara que chova!Adorei.Beijos

  3. “…Já o amava antes. Antes mesmo de ver seus olhos e as mãos que escrevem…” Meu eu atual!Apaixonante texto!beijos ^^

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s