todos precisam morrer para viver

Trovejava e Hugo apagou a luz do abajour cor de creme. Sentou-se em posição de Lótus, como sempre fazia quando desejava fingir sua própria serenidade. Olhou os clarões no céu nublado e imaginou quantas estrelas, como a de Vênus, estariam ocultas pelas nuvens. Naquele dia, algumas horas antes, quando a luz do sol adentrava no seu quarto, ele moveu uma fotografia de lugar. Ía guardá-la imediatamente num baú. O baú de lembranças de Hugo. O retrato era de um rapaz com um corte de cabelo nada bonito, era um tipo de moicano com a proposital intenção de ter sido realizada sem a presença de um espelho. Na foto, o guri sorria e no lado esquerdo do rosto formava uma covinha, dessas que deixam as pessoas aparentemente mais simpáticas. Mostrava ao fotógrafo, de forma orgulhosa, um CD do Pain of Salvation, devidamente fotografado. Usava regata branca e óculos de Belchior.
Hugo, hoje um rapaz de 25 anos, mal se reconheceu naquela foto. Havia perdido alguns quilos e ostentava algumas olheiras. Desiludia-se cotidianamente com as pessoas, achava, enfim, o convívio em sociedade algo forçado. Sentia prostração ao caminhar na rua, então, foi se recolhendo aos poucos àquele apartamento, uma solidão escolhida!
No seu apartamento alugado havia garrafas vazias, uma ou outra caixa de cereal aberta e um colchão sem forro. Não era o que podia se chamar de rei da limpeza e o ambiente parecia impregnado com um cheiro de mofo e de sono. Hugo cheirava a sono. Seu olhar à inércia.
Quando suas pernas adormeceram pela posição de Lótus, ele as esticou no colchão, colocou um pouco de cereal na mão, retirando cuidadosamente as uvas passas. Ele as odiava desde criança, quando ainda era Huguito e corria pelas ruas de paralelepípedos. Comeu as granolas curtindo o croc croc na boca.
Sentia no peito a angústia do por vir e recitou uma poesia que há tempos escreveu…terminava assim: ”Evolução requer dor”. Precisava morrer! Era sua solução, assim, decidiu morrer.
Deitou a cabeça num travesseiro velho e cheios de grumos e adormeceu. Ainda chovia. Não sonhou.
Acordou com os raios do sol. Não gostava de dormir com as persianas abertas, porque sempre acordava pelas sete e meia. Não suportava dormir com claridade.
Pegou a chave e cinco reais. Saiu esbaforido rumo à farmácia da esquina. Lá, comprou um cartão telefônico e guardou o troco no bolso da camisa de flanela xadrez.
Olhou para o sol e cegou-se por um momento. Tudo escureceu! Atravessou a rua até encontrar o orelhão, onde discou o número de um jornal local.
– Bom dia. Aqui quem fala é Nico do Jornal Horário de Maria Santa.
– Bom dia, gostaria de declarar a morte de um conhecido.
– O senhor é parente?
– Hm, sim.
– Já passo para a sessão responsável.
(”Tá tocando Vivaldi”, pensou Hugo, não…não é ele, deve ser outro)
– Bom dia. Aqui quem fala é Jordi, escritor responsável pelos obituários.
– Ar…eu me chamo Nacho, perdi meu parente e queria colocar uma nota no jornal de amanhã. Não precisa ser muitas linhas, pois ele gostava da simplicidade.
– Certo Nacho. Dê-me as informações.
(Nacho respirou profundamente)
– Se chamava Hugo Contreras Mitre. Tinha 25 anos. Era um geminiano que gostava de músicas e de livros. Normalmente os lia acompanhado de alguma bebida. Se formou há 4 anos em Técnico em Jardinagem, mas nunca exerceu a profissão, pois passou a acreditar que o homem não pode modificar a natureza, não era o seu direito. Morava com Bella, sua companheira há 5 anos. Não deixam filhos, nem animais domésticos. Aliás, Hugo detestava bichos, mas acho que você não escreve isso, né?
– É, acho melhor, hehe
– Acho que é isso. O guri adorava dizer que era simples, mas vivia complicando tudo.
– Nacho, sinto muito por sua perda. Só necessito saber agora a causa do falecimento.
– Ah sim. Ele não faleceu, ele morreu. Essa é a palavra certa………Hugo morreu após seu coração bater demais e logo parar.
– Um ataque cardíaco?
– Sim, isso, posso dizer que foi isso, disse um Nacho resignado.
– Nossa, como era novo.
– Ele tinha alguma doença hereditária?
– É, os pais deles tinham algo parecido.
Colocou o telefone no orelhão e saiu com seus passos curtos, bem pisados e sem rumos. Talvez fosse à Patagônia ou ao Alaska. Talvez ficasse em posição de Lótus até achar outra solução. Talvez continuasse a comer granolas e a beber vinho esperando que Bella, a moça maravilhosa, voltasse para seus magros braços. Acreditava que isso fosse acontecer, mas antes precisava morrer. Nem que fosse assim, de mentirinha.
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9 comentários sobre “todos precisam morrer para viver

  1. Morrer e renascer às vezes é necessário.Morrer e renascer sempre é difícil.Quem tem que fazer isso é só um.Quem pode ajudar isso é todo o resto.Ou mesmo nada. Nunca se sabe.Nunca se sabe se vai vir e de onde vai vir. Pode vir dos lugares mais inesperados.Mesmo de uma pessoa que está a 1300 Km e que você nunca viu.

  2. Toidos vivemos pequenas mortes cotidianas. Acredito piamente nisso. O mestre Neruda explicitou este tema muito bem no ‘Farewell y los Solozos’.Beijo.P.S.: Tô sempre por aqui.

  3. muito bom júlia. lembrou-me coisa boa:”Alguns, achando bárbaro o espetáculoprefeririam (os delicados) morrer.Chegou um tempo em que não adianta morrer.Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.A vida apenas, sem mistificação.”DrummondEMorrer tão completamente Que um dia ao lerem o teu nome num papel Perguntem ”Quem foi?…” Morrer mais completamente ainda – Sem deixar sequer esse nome. Bandeira.Favoritei você.

  4. Falando como alguém que morreu recentemente: não é bem assim. A Bella não voltou, pelo menos aqui.Mas quem sabe, ela volta. Numa segunda tentativa.Godsmack – Re-align, é bem isso, ouve.beijo.

  5. eu morri também … só perceberam numa roda de samba, quando meu nariz caiu no copo de cerveja do puxador.bom júlia. e diria mais. muito bom mesmo.vou lincar no meu.

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